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A visita dos meus pais na China! | Mapa da Educação Internacional | MAPAei

2 maio 2016
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你们好,

Ni men hao!

Eu já disse isso uma vez e repito: todo mundo que vem morar na China ou escolhe este país como destino turístico tem um ou mais parafusinhos frouxos dentro da cachola. Tão mais fácil ir para Orlando, passar as férias na Disney! Paris, Roma, Lisboa, Madrid! Tantos lugares lindos, a apenas 12 horas de distância do Brasil! Enfim, meus pais, cujos parafusos estão muito bem apertadinhos e que aos 80 anos de idade jamais incluiriam a China em seus roteiros de viagem, decidiram vir nos visitar em Shenzhen. Este post, em homenagem aos dias maravilhosos em que passamos juntos, vai contar o que seres humanos normais, com tudo dentro da caixinha, precisam se submeter para sobreviver do outro lado do mundo! Bom, antes de tudo, um breve perfil dos meus queridos progenitores.

Meu pai gosta de ter uma agenda organizada, saber com antecedência onde vai, o que fazer, como chegar, com quem falar e por aí vai. Em resumo, gosta de ter tudo sob controle. Tudo sob controle na China, pai? Missão quase impossível!

Minha mãe gosta de uma boa aventura, desde que não inclua duas coisas: comida feita no óleo e ter que subir escada. Comida sem gordura na China, mãe? Metrô sem escadaria? Missão mais impossível ainda!

Bom, como sempre faço com clientes e amigos que vêm nos visitar, imprimi cartões com o endereço de casa escrito em mandarim e coloquei-os junto da cópia dos passaportes dos meus pais, caso um deles se perdesse na rua. Em seguida, troquei os chips dos celulares brasileiros por chips chineses, o que, imediatamente, desencadeou uma enxurrada de mensagens da China Mobile, iniciando assim o doloroso processo de “perda total de controle” da situação.

_ O que eles estão dizendo? Vai ver o telefone está sem dinheiro. E se for algo urgente? Precisa responder?

Placar: China 1 x Brasil 0

Foto China 1

No dia seguinte, precisávamos trocar os dólares que papai havia trazido para resgatar logo sua independência financeira. Como aqui ele estava “surdo, mudo e analfabeto” segundo ele mesmo, o jeito foi apelar para o meu filho Dudu como guia turístico. Mas o que ninguém contava aconteceu: os dólares de carinha pequena não foram aceitos pelas casas de câmbio e nem os de carinha grande que estavam um pouco sujinhos e mofados. Ou seja, grande parte do dinheiro que papai trouxe não tinha valor. E, para piorar um pouco mais a situação, seu cartão de credito Visa não era aceito em lugar nenhum. Aqui na China, a bandeira oficial é a UnionPay. Marquinhas desimportantes como Master, Visa ou American Express podem até ser aceitas, mas a confusão é grande!

Placar: China 2 x Brasil 0

Foto China 2

Continuando o jogo, no fim de semana levamos os avós para comer fora pela primeira vez. Existe uma rede de restaurantes de chineses muçulmanos que serve um macarrão delicioso. Pronto, é lá mesmo que nós vamos! Antes, porém, eu avisei a todo mundo que o restaurante era supersimples, com banquinho em lugar de cadeira, papel higiênico em lugar de guardanapo, mas que a comida era deliciosa e muito, muito barata. Média de 15 RMB (8 reais) um pratão de macarrão com cogumelos, ovos, vegetais, carne de vaca, de carneiro… só não rola carne de porco por motivos religiosos.

Minha mãe entrou no restaurante e começou a respirar pela boca para não sentir cheiro de óleo. (Hummm, mal sinal). Tentou fingir que não estava com fome, suspirou dali, se mexeu daqui, mas acabou escolhendo um prato e, para felicidade geral da nação, gostando! Só que, provavelmente por conta dos temperos muito fortes e diferentes usados na comida chinesa, ela passou mal à noite toda e amanheceu, como diz ela, um trapinho.

Placar: China 3 x 0 Brasil

Depois de a mamãe estar totalmente recuperada, levei-os para fazer os programas turísticos mais legais de Shenzhen que, para mim, são: comprar peixe vivo no mercado municipal, ver as miniaturas das principais atrações turísticas do mundo no parque Window of the World, passear no Shenzhen Bay, almoçar no OCT Loft ou no OCT, jantar no Sea World, comprar muamba no mercado de artigos falsificados de Luohu, visitar a vila dos pintores em Dafen e, como não podia deixar de ser, fazer uma boa massagem.

Além disso, como eu precisava ir ao consulado brasileiro resolver uns problemas burocráticos, levei-os também à cidade de Guangzhou cuja parte nova é linda! Quem nos levou foi o Lee, um dos motoristas que prestam serviços para os estrangeiros e que é também uma espécie de amigo da família. Lá pelas tantas, o Lee para puxar assunto no carro, disse que o pai dele era capitão de navio. Eu falei, “O meu também”. Ele muito orgulhoso complementou: “O meu transporta produtos pelo rio”. Eu retruquei: “O meu é almirante de esquadra da marinha brasileira”. Pronto! Num país comunista, onde as forças armadas são efetivamente respeitadas, meu pai era, na visão do Lee, o homem mais importante do Brasil. A partir daí, ele só o tratava de “my general” e batia continência toda vez que papai entrava ou saía do carro.

Placar: China 3 x Brasil 1

Foto China 3

Lee e seu carro da sorte: dois números 8 na placa!

Depois de Guangzhou, fomos visitar Macau. Em Macau, num dos hotéis cassino mais famosos de lá, o The Venetian, a China fez mais um ponto. Depois de comermos num restaurante chiquérrimo, papai foi todo contente pagar a conta com seu cartão Visa. Precisa dizer o que aconteceu? O cartão não passou e pronto. Eu abri minha carteira e comecei a contar as patacas, mas não havia o suficiente nem para pagar a metade do jantar. Eu, nervosa, só conseguia resmungar baixinho: “I don’t have mataca, sorry, pacata, sorry, pataca.”

Bom, o jeito foi tentar trocar os dólares numa das bancas do cassino. E lá fui eu, com dólares de cara pequena, cara grande, mofados e sujinhos entre as mesas de blackjack e máquinas de caça-níqueis, rezando para eles aceitarem. O primeiro macauense que me atendeu rejeitou os dólares, mas em se tratando de um cassino, a gerente acabou trocando. Quando cheguei de volta ao restaurante, meus pais pareciam dois trambiqueiros monitorados de longe pelo maitre desconfiado.

Foto China 4

Hotel The Venetian em Macau e a reprodução dos canais de Veneza no segundo andar do prédio

 

Placar: China 4 x Brasil 1

A próxima parada foi em Hong Kong. Depois de andar quilômetros dentro de uma das suas gigantescas estações de metrô e já vislumbrando a escadaria que nos aguardava para sairmos dela, avistei maravilhada um elevador. Minha mãe já estava tão cansada, que não dava para exigir dela mais nenhum esforço físico. Na frente do elevador, havia uma catraca para passar o cartão do metrô que eu tinha, mas meus pais não. No desespero, passamos os 3 juntos agarradinhos um no outro com uma única volta da roleta, usando o meu cartão. Pegamos o elevador e, em vez de subir, ele desceu. Ou seja, não adiantou de nada! Pegamos o elevador de volta e, na hora de passar novamente na catraca, a máquina começou a apitar e um supervisor do metrô veio ver o que estava acontecendo. “My general” foi pego em flagrante tentando dar o golpe no metrô de Hong Kong!!! No fim das contas, eu fiz cara de turista desinformada, tomei uma bronca e ficou por isso mesmo.

Placar: China 5 x Brasil 1

Foto China 5

Giant Buda, o melhor passeio de Hong Kong e minha opinião

Meus pais ficaram em Shenzhen durante 30 dias e aprenderam a gostar daqui. Minha mãe, considerada a senhora de 80 anos mais linda do mundo por todas as minhas colegas chinesas, já até ia ao cabelereiro sozinha. Meu pai saía todos os dias para caminhar na orla em frente de casa e comprar guloseimas no mercadinho aqui de baixo, onde era tratado cheio de intimidade.

Mas onde o Brasil virou definitivamente o jogo foi na hora de estabelecer relações afetivas com os chineses. Meus pais, através de sorrisos, gestos, toques e todos os tipos de mímica possíveis conquistaram o coração de duas pessoas. A primeira atingida pelo calor brasileiro foi a Linda, a motorista que nos levou para cima e para baixo em Shenzhen, trocando declarações de amor com a minha mãe e trazendo presentinhos para ela. Linda não tem mãe e se apaixonou pela minha, mesmo não falando uma palavra de inglês.

Foto China 6

Imperdoável não ter uma foto da Linda com meus pais!

A outra foi a minha ayi, a Aijiao. Antes dos meus pais chegarem, Aijiao já havia mandado fazer cobertores e lençóis novos para colocar na cama; tinha dado um jeito no banheiro para ficar mais confortável, enfim, já tinha tomado conta da situação. Quando meus pais chegaram, foi como se os pais dela tivessem vindo visitá-la. Aijiao se surpreendeu com a jovialidade da minha mãe e com o fato dela ter todos os dentes na boca. “Kelisi (Chris), os dentes dela são de verdade?”.

Foto China 7

Aijiao e meus pais

Placar: China 5 x Brasil 10!

Não foi fácil para ninguém se despedir dos meus pais depois de tanto tempo grudados com a gente. E a China, essa nunca mais será a mesma depois que “my general” e sua esposa estiveram aqui!

 

Christiane Dumont

Christiane Dumont é certificada pela Sociedade Brasileira de Coach em Life&Personal Coach e atende pessoalmente e por Skype. Pós-graduada em propaganda e marketing, vive há quase cinco anos em Shenzhen, na zona do Cantão na China. Casada, mãe de 3 filhos, trabalha fornecendo suporte a brasileiros que desejam fazer negócios, estudar ou conhecer este país, além de escrever para mídias sociais sobre suas experiências como expatriada.

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