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Aventura em hospital chinês - Parte 1 | Mapa da Educação Internacional | MAPAei

29 junho 2015
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Ni Hao,

O sistema de saúde na China é assim: o cidadão paga uma parte, que é descontada do seu salário, e a empresa paga a outra. Ele tem um cartão que dá direito a usufruir gratuitamente do serviço médico. Se não tiver emprego, não tem cartão. Se não tiver cartão, tem que pagar. Se não puder pagar, morre.

Pobre e rico frequentam os mesmos hospitais, com exceção daqueles especializados em frescuras como cirurgia plástica e dentista. Isso explica os dentes muito feios da maioria dos chineses.

Ou seja, por um lado, o sistema é bem socialista: ricos e pobres frequentam os mesmos hospitais. Por outro, é de um capitalismo extremo: não tem como pagar, sinto muito.

Um dos meus maiores medos ao vir morar na China era o que fazer quando ficássemos doentes. Depois de 4 anos por aqui, nós estabelecemos o seguinte critério:

1. No caso de resfriados, dor de barriga, cortes e machucados, nós vamos ao Shekou People Hospital aqui perto de casa. A gente paga 18RMB de registro, não precisa nem mostrar o passaporte, e é direcionado para um médico que, normalmente, não fala inglês. Ou seja, esta é uma excelente opção para quem tem um chinês básico e já aprendeu a falar febre, dor de garganta, dor de cabeça etc.

2. No caso de sintomas que parecem um pouco mais graves, nós vamos ao Hong Kong University Shenzhen Hospital. As instalações são maravilhosas, você consegue marcar consulta por telefone com uma atendente em inglês que manda uma mensagem de texto para seu celular com todos os dados. O registro custa 100RMB e você precisa mostrar seu passaporte. A maioria dos médicos fala chinês e o atendimento é excelente.

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Hospital ou Shopping Center?
  1. No caso de doenças graves como um câncer, por exemplo, nós vamos para Hong Kong nos tratar nos hospitais de lá.

Nossa primeira experiência num hospital chinês, há 4 anos, foi muito, digamos, interessante. Mariana, minha filha que na época estava com 15 anos, fez mais um furo na orelha e, durante a cicatrização, a tarraxa do brinco entrou na pele e o furo fechou com a tarraxa dentro.

E agora? Agora tem que ir ao hospital retirar antes que o problema piore. Chamamos nossa ayi (empregada) Liu para ir conosco de tradutora e intérprete.

Chegamos à recepção, preenchemos um papel com nome e idade da Mari, pagamos 7 RMB (hoje a taxa é de 18RMB) e explicamos o problema para atendente. Ela nos mandou para o terceiro andar onde ficava o otorrinolaringologista. Ops! Ela não enfiou a tarraxa no tímpano! A tarraxa está dentro da pele! Pele… dermatologista… Ai, Jesus, Buda, sei lá!

O tal otorrino usava jaleco branco e a máscara de proteção caída no queixo, deixando de fora uma boca cheia de dentes amontoados e alguns espaços vazios. Mariana começou a entrar em pânico: “eu vou embora, tô indo embora!”

O médico a mandou sentar numa poltrona ao lado dele que parecia ter sido tirada de uma sucata de ônibus. Tinha até um rasgo no encosto. Ao lado da poltrona, estava uma pilha de tesouras, alicates e bisturis amontoados dentro de uma grande caixa de metal.

O médico analisou, grunhiu alguma coisa (tradução do grunhido: se estiver muito fundo, vamos ter que cortar) e nos mandou para a sala ao lado desinfetar o local.

Na sala imediatamente ao lado, algumas crianças faziam nebulização e um chinesinho, de mais ou menos 10 anos, segurava dois palitos enfiados no nariz. Na ponta dos palitos, por baixo da pele, dava para ver duas luzes vermelhas que piscavam.

Na sala seguinte, aonde a orelha da Mariana seria desinfetada, um bebê de dias estava deitadinho na maca, levando pontos na cabecinha e chorando como um bebê de dias.

Diante desse episódio da Família Adams, médico cheio de dentes, caixa cheia de bisturis, menino de nariz vermelho e neném suturado, Mariana desestabilizou de vez! Começou a me empurrar dizendo “Como se fala anestesia em chinês? Eu não vou cortar nada sem anestesia! Liga pro meu pai! Liga pro meu pai!”

A Liu saiu para pagar o procedimento enquanto eu fazia o telefonema. Expliquei o lance da anestesia para o Luiz que falou com uma amiga chinesa que falou com a enfermeira pelo telefone que passou para o médico que falou com a Liu que já tinha voltado, mas ninguém dizia nada sobre anestesia.

No meio deste telefone sem fio, Mariana foi empurrada para dentro da sala e deitada na maca com as lágrimas escorrendo. Enquanto a Liu passava a mão pelo braço dela tentado acalmá-la, o médico fazia o procedimento e eu narrava os acontecimentos: “Agora ele pegou uma pinça, agora outra pinça menor, agora ele está pegando uma gaze por que sangrou um pouquinho… vamos tomar um delicioso Frapuccino no Starbucks depois disso tudo?”

A verdade é que: os instrumentos estavam em sacos esterilizados, o médico de mil dentes era um doce (perguntava o tempo todo se estava doendo) e, acima de tudo, retirou a tarraxa que estava encravada na orelha da Mari com uma delicadeza e competência infinitas.

Todo o procedimento custou 160 RMB (R$ 80,00) incluindo o remédio e levou apenas 20 minutos!

No próximo post, vou contar uma nova aventura no Shekou People Hospital, desta vez, com o Marcos, meu filho de 16 anos.

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Lista de espera do hospital: sentiram o problema?

 

Foto Chris

Christiane Dumont é publicitária e vive há quase quatro anos em Shenzhen. Casada, mãe de 3 filhos, ela trabalha fornecendo suporte a brasileiros que desejam fazer negócios, estudar ou conhecer a China. Christiane também escreve para sites e mídias sociais e atua como gerente de marketing de um centro de língua e cultura que visa estreitar as relações entre chineses e estrangeiros do mundo inteiro. Ela é parceira exclusiva da MAPAei na área de educação e organiza o Programa Welcome Plus em Shenzhen.

 

 

 

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