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27 abril 2015
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Ni Hao,

Um dia meu sogro me instigou a fazer um relato do que havia mudado nas crianças depois de termos vindo para cá. Resolvi relembrar o que aconteceu conosco 9 meses depois que chegamos aqui. Uma gestação completa. Fiquei pensando no que cada um de nós pariu depois deste tempo todo.

Conclui que cada um de nós pariu um outro “eu”.  E acho que, felizmente, este outro “eu” é uma versão melhorada de nós mesmo.

Como assim?

Imaginem que, num belo dia, um disco voador o abduzisse e depois o soltasse num local totalmente estranho. Bum! Você cai de dentro da espaçonave, levanta e olha em volta. E o que você vê? Pessoas estranhas, que se vestem de forma estranha; escarram no chão, colocam os filhos para fazer xixi e cocô na rua, se acocoram para descansar as pernas; usam buracos em vez de privadas; comem cachorro, cobra, escorpião, lagarta; gritam, se empurram, furam fila… e você, ali, olhando tudo aquilo, levando um esbarrão de vez em quando e se perguntando “de quem foi mesmo a idéia de embarcar neste disco voador?”. Não sei se por causa do nosso instinto de sobrevivência, mas acabamos nos acostumando a tudo isso. Nove meses depois, amigos, nosso outro “eu” nasceu com um nível muito mais avançado de tolerância e de respeito às diferenças.

Agora imaginem que, neste novo local, você não tem carro (não dirijo há 4 ano), não tem emprego e perdeu a capacidade de se comunicar: não fala, não lê e muito menos escreve a língua dos habitantes. O que você faria numa hora destas? Sim, enfiaria o orgulho no saco e pediria ajuda. Pediria ajuda a pessoas que você mal conhece, mas que estão há mais tempo neste novo mundo. A seus filhos, que falam inglês ou chinês melhor que você. A sua empregada, que a acompanha ao médico, ao supermercado, ao cabelereiro e que conhece da marca do seu absorvente até suas doenças crônicas mais íntimas. Sim, amigos, nosso novo “eu”, além de mais tolerante, nasceu muito mais humilde.

E se você fosse uma criança e seus pais, antes fortes, seguros e protetores, não conseguissem dizer o endereço de casa para o motorista de táxi? Ou pedissem comida no restaurante apontando com o dedinho a foto dos pratos e, além disso, fizessem carinha de nojo quanto o prato chegasse? Imaginem que seus pais não conseguissem explicar claramente para seus professores o seu problema e que você morresse de vergonha do sotaque deles? Então, sem muita escolha, nove meses depois, nossos filhos tiveram que ser tornar muito mais independentes.

E, finalmente, imaginem que, nove meses depois, você já se sente quase parte deste novo mundo (embora continue analfabeto e sem carro) e um novo disco voador reaparecesse e jogasse novas pessoas neste local? Na mesma hora, você as juntaria do chão, sacodiria a poeira, pegaria pela mão e apresentaria o supermercado, a farmácia, a yoga, o Starbucks…  Nove meses depois, nascemos também muito mais solidários.

Humildade, tolerância, independência e solidariedade. Estamos ou não muito melhores?

Disco voador pousado no Sea World, em Shenzhen. Foto: Christiane Dumont

Disco voador pousado no Sea World, em Shenzhen.

 

Foto: Christiane Dumont

 

Esse post é dedicado ao sogrão que me deu a idéia de escrever sobre isso.

 

2 responses on “9 meses na China

  1. Mari Ventura disse:

    Que lindo. Amei. Tudo que sempre quis foi melhorar como pessoa e vc conseguiu na adversidade e melhor ainda, conseguiu perceber isto. Parabéns. Orgulho.

    • Christiane Dumont Rotstein disse:

      Querida Mari, uma vez eu li que andar é um processo constante de perda de equilíbrio. A gente tira o pé de trás, perde o equilíbrio por um segundo e coloca o pé na frente reencontrando a estabilidade recém perdida. E assim, se anda para frente! Saudades de você! Nos veremos em breve!