Esta cidade antecipa o que a China quer ser em 20 anos

16 outubro 2017
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Notícias: Exame

Shenzhen é um caso indiscutível de sucesso econômico e serve de inspiração para postulantes à metrópole do século 21

Em Shenzhen,  a quarta maior cidade da China, com 11 milhões de habitantes, a preocupação com sustentabilidade não demora a ser percebida. Logo ao desembarcar, nota-se que os táxis que atendem o aeroporto têm placas verdes, indicando que são movidos a energia elétrica, e não a gasolina. São cerca de 8.500 espalhados pela cidade. Shenzhen também tem 16.000 ônibus elétricos e uma das maiores frotas de carros particulares elétricos do planeta. Eles contam com vagas especiais, descontos nos impostos e direito a faixas exclusivas.

A cidade era uma antiga colônia de pescadores até que, em 1979, foi escolhida por Deng Xiaoping — o maestro da virada da China pós Mao Tsé-tung — como a primeira zona especial de desenvolvimento do país. Nas palavras do ex-presidente Hu Jintao, é uma metrópole que simboliza o “milagre econômico chinês”. Hoje, é sede de gigantes de tecnologia como a Huawei, que fabrica de cabos a smartphones, e a Tencent, dona do mais popular aplicativo do país, o WeChat, e também de novatas como a DJI, a maior fabricante de drones do planeta.

Em alguns bairros, a renda média chega a 50.000 dólares por ano, cinco vezes a média chinesa. A cidade tem 125 empresas de tecnologia listadas em bolsa, com valor de mercado somado na ordem de 400 bilhões de dólares.

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Shenzhen é um dos principais exemplos de cidades planejadas, e inteligentes, que brotam mundo afora. São áreas escolhidas a dedo pelos países para que sirvam como modelo de desenvolvimento nas mais diversas frentes, notadamente em inovação e sustentabilidade. A receita é sempre parecida. Escolha uma região com dificuldades econômicas, faça pesados investimentos em infraestrutura urbana e de telecomunicações, dê incentivos financeiros e tributários para atrair empresas, crie centros de pesquisa e inovação. Se tudo der certo, as cidades conseguirão caminhar com as próprias pernas em alguns anos ou décadas. Se tudo der muito certo, estenderão sua influência por dezenas de quilômetros, criando um polo de desenvolvimento. No melhor dos cenários, o sucesso dessas cidades servirá como laboratório para oxigenar o ambiente de negócios e as políticas de desenvolvimento do país, e ainda se transformar numa peça de propaganda global. “Em Shenzhen, o governo é muito inovador e agressivo na adotação de novas tecnologias. A chave é tomar as decisões e apoiar os investimentos da iniciativa privada”, diz Tom Zhao, diretor da divisão de energia solar da BYD, maior fabricante de carros elétricos do planeta, instalada em Shenzhen. (Saiba mais: Por que precisamos de cidades inteligentes e como criá-las Patrocinado) 

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Cidades construídas do zero serviram para defesa, para embelezar impérios, para expandir territórios. O Brasil tem seus exemplos, como a construção de Brasília, inaugurada em 1960 para acentuar o desenvolvimento do interior. Hoje, boa parte das novas metrópoles serve para teste de projetos de energias renováveis, carros autônomos, conexões de alta velocidade. (Big Data: A Hekima mostra como a tecnologia está acelerando a indústria automobilística Patrocinado) 

A Coreia do Sul está investindo 40 bilhões de dólares na construção de um distrito financeiro para 80.000 pessoas nos arredores de Seul, batizado de Songdo. Na Árabia Saudita, está em construção a cidade autossustentável de Gidá. Os Emirados Árabes estão investindo 20 bilhões de dólares na construção de Masdar, uma cidade planejada abastecida a energia solar e pensada para ser um polo de empresas sustentáveis no meio do deserto. Por trás do projeto, está um estudo do governo dos Emirados que estimou que as reservas de petróleo do país durarão apenas 150 anos e que, por isso, é preciso diversificar a economia com turismo, tecnologia e energias verdes.

“O grande desafio dessas novas cidades é projetar um futuro mais sustentável. Ainda estamos testando as tecnologias que serão usadas em nossas cidades nas próximas décadas. São experimentações, e experimentações tomam tempo”, diz Mary Teagarden, professora na escola de negócios americana Thunderbird e especialista no desenvolvimento de cidades.

Entre a ambição e a realidade há uma enorme distância. Os novos projetos se concentram nos países onde os desafios da urbanização são mais urgentes, principalmente na África e na Ásia. São lugares com problemas demais a resolver e, muitas vezes, dinheiro de menos, e isso tem feito com que muitos projetos, como o parque tecnológico Hope City, em Gana, estejam atrasados.

Os projetos costumam receber a crítica de urbanistas por ser muito parecidos entre si, ignorando diferenças regionais. Songdo, na Coreia, terá uma réplica do Central Park, de Nova York, e outra dos canais de Veneza. Lavasa, na Índia, foi inspirada num balneário italiano. Gidá, na Arábia Saudita, pretende ter o maior arranha-céu do planeta, com 1 quilômetro de altura. Hope City, em Gana, planeja o edifício mais alto da África.

Também são pensados para a elite e para imigrantes, colocando a população local, normalmente menos capacitada, em segundo plano. “Cidades sustentáveis são muito, muito complexas. Esses projetos aspiram fazer algo que nunca foi feito antes. Construir o consenso requerido para seu sucesso nos diversos níveis de governo, sociedade e planejadores urbanos é muito difícil”, diz Mary Teagarden.

Na fronteira da tecnologia: Shenzhen e arredores respondem por 40% dos registros de patentes chinesas Tyrone Siu/Reuters

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